sexta-feira, 9 de maio de 2008

Personagens



Percepção.

E sensação.

Primeiro, eu percebo o mundo. Eu tenho a interpretação de tudo em minha mente. E com os ingredientes fornecidos pelos meus sentidos, faço uma sopa de letrinhas que dizem: “que gostoso”... ou então suspiram “que alívio”.

Mas eu também sinto o mundo. Como um rato em uma gaiola eu recebo seus choques sem poder reagir. Ele é tudo aquilo que eu não consigo ser, e tampouco, entender.

De um lado, eu sou meu próprio Deus. Do outro, sou dominado por uma entidade superior à mim, seja ela qual for.

Sendo meu próprio Deus, sou também o Deus de muitos. Tenho o poder para criar vidas e com elas posso fazer o que bem quiser. E é o que fazem os escritores. Eles criam seres destinados a fazer exatamente aquilo a que foram programados.

Eu adoro fazer isso. Criar uma vida para mim. Uma não, várias. Pessoas diferentes, que pensam e agem de formas completamente diferentes. Fazê-las interagir entre si, só pra ver no que vai dar. E olhar com atenção. Perceber as sensações em cada simples acontecimento, emocionar-me com a história que eu mesmo estou escrevendo. Ficar imaginando todas as formas sob as quais as pessoas poderão se emocionar.

Provocar emoções.

A sensação é maravilhosa. Vem banhada de um êxtase intelectual tremendo. É você conquistar o poder de, a partir de palavras, causar impactos nas mentes das pessoas que te escutam ou lêem.

E você pode escolher os impactos. Quero ver Fulano sentir medo! E conseguir! Quero ver Fulano apaixonado. Lá está ele, nas nuvens.

A sensação de poder é maravilhosa. Agora você vai sentir medo! E joga seu encanto. Lá está ela, toda apreensiva. Rói as unhas. Depois você para. E grita, alívio! Ela suspira.

Eu olho para meus personagens e chego até a sentir pena, pois são indefesos ante ao meu imenso poder.

sábado, 5 de abril de 2008

O Começo.

Cheguei em casa, olhei para meu quarto bagunçado, o computador, no canto, parecia me convidar. A curiosidade me tomava. Era algo mais forte do que eu. Como se houvesse um demônio dominando meu corpo e instintivamente, sem pensar no que estava fazendo, sentei-me, e abri a página do meu blog. E lá estava ela. Fácil, como sempre, na página principal do meu computador. Abria-me as pernas e sussurrava-me sensualidades.

Meu cérebro teria uma ereção se tivesse um pênis. Isso considerando meu cérebro como uma outra entidade dentro de mim, e tivesse que ter seus próprios órgãos. Como Woody Allen, (maldito ladrão de idéias) usou em “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo, mas tinha medo de perguntar”.

E como isso não tem nada a ver com meu blog, volto a falar o que estava acontecendo na história que eu estava anteriormente contando e que subitamente interrompi, para viajar na maionese como eu sempre faço. Havia um comentário. E era um comentário muito bom. E ainda assim, um comentário muito extenso, incomum. Mas era um comentário anônimo. Mas o que ele dizia era impressionante. Fiquei o dia inteiro, e ainda a outra semana inteira refletindo sobre o que ele ou ela, sei lá disse.

Não pela novidade do que havia escrito, mas sim pelo fato de realmente existir no planeta alguém que conseguisse ter uma opinião tão parecida com a minha. Justo agora, nesta altura da minha vida, quando já tinha quase perdido as esperanças de que realmente haveria gente que pudesse conversar comigo.

É quase que um processo de diferenciação biológica. A adaptação de indivíduos da mesma espécie, portanto parecidos, em ambientes completamente diferentes, leva, ao longo do tempo, e como diria um dos meus grandes heróis, o mestre Charles Darwin, ao famoso processo de seleção natural, que leva a criação de espécies diferentes.

Mas você já pensou se não pode existir um processo de seleção natural de idéias? Sim! Pense nas idéias como genes. Estes genes têm que combinar-se entre si para garantir a diversidade biológica. Os pensamentos também. Eles combinam-se entre si e garantem a diversidade ideológica. Legal. Será que alguém já teve uma idéia assim antes? Não sei. Tenho tantas idéias que já nem sei mais quais são as minhas e quais são as dos outros.

Por que, você sabe, vou te confessar uma coisa. Tenho essa horrível mania de pegar as coisas emprestadas dos outros. Pego tudo, dinheiro, elogios, sexo, hábitos, manias, idéias, sonhos, ilusões. E algumas dessas coisas às vezes eu demoro para devolver. Algumas, nunca mais devolvo. E talvez nunca vá devolver. Outras, tive que me esforçar muito para conseguir viver sem elas e conseguir devolver. E eram mentiras, sadismos, vícios, egoísmos todos misturados no meio da bagunça da minha mente, que acreditem ou não, é maior ainda que a do meu quarto.

Na verdade, eu tinha entrado no quarto, por outro motivo. Eu havia acabado de ter uma epifania. Algo sobrenatural aconteceu comigo. Fiquei muito assustado.

Conto.

Eu vou ter que trabalhar daqui a pouco. Aulas particulares. Os alunos devem chegar lá pelas 4 horas. Agora são 2 e 25. Comecei a escrever 2 horas. Cheguei aqui no quarto e falei para mim mesmo: Como é que eu vou ocupar os próximos minutos da minha vida até chegar 4 horas e eles chegarem? Pensei, mas não muito, pois fui logo agarrado por mais uma daquelas idéias fáceis, prostitutas, que se atiram em você e te estupram violentamente e te fazem aceitar sem reclamar, e ainda assim gozar.

Fume maconha. Dizia a idéia. A lucidez é triste. Não há prazer na lucidez. Venha sentir um pouco mais as coisas. Excitar-se com a vida, fundir sua alma ao universo. Venha enebriar-se das maravilhas do universo. Abra sua mente para o mundo das idéias e reencontre Platão, a conversar sorrindo com Aristóteles, lembrando-se sorrindo de mais uma das histórias de Sócrates que Xenofonte sempre contava. Venha rever Descartes, entupido de maconha e com a mente fervilhando de idéias trazidas de outras dimensões, onde Lovercraft encontrava Stephen King todos os dias e discutiam como medrosos são os humanos.

E claro que eu obedeci. Uma idéia domina você totalmente. E fui lá perguntar pra Freud o que é que estava acontecendo comigo. Aquele chato me disse que ele já não sabia explicar, por que morreu antes das descobertas de um tal alemão que morou nos Estados Unidos durante a segunda guerra. O alemão era Einstein, e muitos acham que graças a ele, Hitler não ganhou a guerra. E dizem, bem feito! Por que quem é que mandou ser outro chatão e não saber brincar e ter tentado tirar os pobres judeus da brincadeira.

Logo os judeus, que tempos atrás tinham se misturado para dar origem a um tal de Jesus Cristo que tinha falado pra todo mundo que eles tinham que aprender a brincar direito. Falou que cada um tem que esperar a sua vez para brincar um pouquinho. E que tem brinquedos para todo mundo. E quando você não gosta mais do brinquedo, o problema não é com o brinquedo e sim com você, que não está sabendo brincar.

E aí me lembrei dos meus próprios brinquedos. E parecia que meu notebook sorria para mim. Um sorriso malicioso, que dizia, eu te domino! Você é meu. Eu, indefeso, sabia que era verdade. Olho para o lado do computador, meu cachimbo. Parecia o rabugento, aquele cachorro do Dick Vigarista, sorrindo cinicamente.

E apesar da comicidade das comparações, aquilo não tinha graça nenhuma, pois estava tomando conta da minha vida. E eu não podia fazer nada para me defender. Olhei de novo para o relógio, 2 e 45. Tinha perdido mais tempo ainda. E os alunos vão chegar 4 horas... Então me lembrei.

O material. Sim, o material. Eu vou dar aulas de português para uns Holandeses. Ah, claro, desculpe, nem me apresentei... Desculpe, eu sou assim mal educado mesmo... É que já estou escrevendo em tantos blogs nesta porcaria de internet que estou tratando você como qualquer um, pois para falar a verdade, você vai me perdoar, mas pode ser até que você nem exista.

Na verdade, meus planos são que você, se existir, ralou muito para chegar até aqui. Ou pelo menos teve que ler muita coisa antes. E esta será a página que revelará toda a verdade. O que é toda a verdade? Boa pergunta.

Essa página vai falar de uma idéia que eu tive. Vou tentar explicar de uma forma bem simples. Preste atenção. Pare de se perder no texto, como eu sei que tem se perdido, você e essa sua mania horrível de se perder por causa de qualquer idéia.

Imagine a história do cara que dominou o mundo. Isso mesmo! Suas idéias se espalharam por todos os lados, como ordens. Mudou a forma de todos os seres humanos pensarem. Conseguem imaginar? Qual foi a primeira imagem que veio a sua mente? O Pink e o Cérebro? Jesus Cristo? Satanás? Os Beatles?

Com certeza não foi a minha cara. E isto acontece por vários motivos. O primeiro é que você nem me conhece. Não sabe como eu sou. Pode no máximo supor, mas nunca terá certeza, a não ser que eu te conte. E a brincadeira toda perderia a graça se eu contasse de uma vez, assim de sopetão.

E vou escrever aqui a história de como eu fiz para conseguir dominar o mundo. Como se estivesse conversando com meu amigo invisível que é você, mas na verdade sou eu mesmo, que sempre vou ler o que eu mesmo escrevi, imaginando a mim mesmo em terceira pessoa.

E o mais legal, é que ninguém vai imaginar nunca que toda a história de como o mundo foi, está sendo ou será dominado está misturado no meio de um blog de alguém que jogou o endereço na internet, aleatoriamente, e nunca divulgou para ninguém o endereço.

Na verdade, começariam a ler, mas achariam que é mais uma bobeira de algum maluco que não tem o que fazer e fica perdendo tempo com idiotices na internet. Ninguém leria até o fim. E para garantir que isso aconteça, vou deixar espaços para comentários anônimos. Vou também verificar sempre se tem gente visualizando o meu perfil e torcer para que seja sempre o mínimo possível.

E aí você pode perguntar: Mas se você não quer que ninguém veja, então por que é que você está fazendo essa página, seu otário? Aí é que está. A resposta para todas as perguntas. E possivelmente aquilo que te trouxe até aqui, também.

Por quê. Você usa tanto essa palavra não é? Já respondo. Tenha calma. Já são três horas. Vou ter que ir até a loja aqui ao lado de casa para fazer as cópias dos materiais dos holandeses. Já volto. Vou caminhando e ouvindo Fernando pessoa sendo recitado por Paulo Autran. Petardo.

Antes de sair, fumei mais um pouco de maconha. Voltei agora, às 3 e 47. Daqui a bem pouco tempo os alunos estarão aqui. Tenho uns dez minutos, então vou usá-los para preparar a sala de estudo e tornar minha casa e pessoa socialmente aceitáveis. Vou jogar desodorante para sumir com o cheiro de maconha. Preciso tomar um banho antes, mas para isso teria que me masturbar... Afinal de contas, sempre que tomo banho, tem que ter uma batedinha de punheta antes. É quase que uma regra. Mas são só dez minutos... E lembro que a sala está uma bagunça... E é claro que o que mais está me atrapalhando é esse blog idiota que não me deixa sair. Então saio.

Não tive tempo de tomar banho. Os alunos chegaram logo em seguida eu ter escrito a última linha. Agora são 6 e 16. A aula deles acabou de terminar. Foi uma ótima aula, bem acima das minhas expectativas. Comprei bolacha e refrigerante para eles. A casa estava bem arrumada. São uns moleques. Três moleques de dezessete anos e uma menina de 16. Parecem os três patetas. Vivem brigando e rindo uns dos outros. Qualquer coisa é motivo para um colocar apelido um no outro. O desenho de uma caricatura nariguda na bolacha já é motivo de um falar que o desenho é parecido com um dos três, que é narigudo. E começam a discutir. Um tem o nariz grande, o outro tem pinto pequeno. E todas essas discussões na frente da menina, que fica no meio, sem entender nada, achando eles uns grandes imbecis absurdamente infantis, apesar de serem uma ano mais velhos que elas.

A menina é muito lindinha. Os outros três, no fundo, ficam admirados com seu jeitinho meigo, quase de filhote, mas ainda com a sensualidade carrasca dos olhares pueris que invade até o peito dos mais velhos. Trato-a com muita educação, diferente dos moleques, os quais os trato sempre em tom de brincadeira. Um deles ficou olhando com olhar malicioso, como se eu estivesse dando em cima dela. Provavelmente deve estar comentando com os outros alunos. Vão dizer que estou paparicando ela por que ela é bonita. É claro que isso não é verdade. A verdade é que eu acho que é realmente importante para as mulheres que elas se sintam bem hospedadas. O mesmo não se aplica aos homens, muito menos de 17 anos.

Talvez seja instinto mesmo, mas obviamente eu não trataria uma princesinha daquelas com o mesmo diálogo que trato aqueles moleques bobos. A questão deve ser o bom senso mesmo.

Mas a aula fluiu legal. Estavam envergonhados, pois não sabem nada sobre o idioma, estão começando do básico. Consegui fazer com que as brincadeiras animassem a aula ao invés de torná-la bagunçada. Ponto para mim. Espero que gostem a ponto de continuarem fazendo aulas. Isso garantiria um pouquinho mais de receita financeira mensal, que me é muito importante.

Mas eu estou muito chato. E isso deve ser por que acabou-se o efeito da maconha. Escrever lúcido faz com que o texto fique completamente diferente do que ficaria se eu tivesse fumado. Então, exatamente agora, vou fazer mais um experimento. Vou fumar mais um pouco. Mas antes vou tirar minha roupa, pois nada mais chato do que ficar dentro de casa, sozinho e ainda de roupas.

E assim tem sido todos os meus dias. Fico peladão, fumando maconha, na frente do computador lendo ou escrevendo. Mesmo nos dias em que eu deveria estar fazendo outra coisa. E são nesses momentos que penso se isso realmente vai me ajudar a dominar o mundo.

Mas a vontade é grande. São 6 e 29 e ainda não fumei nada. Lá vou eu. Vou parar um pouquinho. No próximo post voltarei tomado por algum espírito canabiense. Perceba a diferença no texto que será escrito no próximo post.